Carta para Alzira.

terça-feira, 20 setembro, 2011 @ 6:18pm

Mi hermosa, Me ensina como faz para enganar o coração? Lembrei do dia em que te conheci e me deu uma vontade tão grande de te escrever. Não adianta, não consigo te tirar de mim. Lembro de te ver e me perguntar o que você, tão pequena, fazia perdida nessa cidade grande, depois notei que pequena demais era a cidade comparada ao tamanho do seu coração, coração grande aquele que me cedeu um cantinho só pra mim sem nem pedir nada em troca. Era tudo tão doce, tão doce, tão doce, tão doce… Só que deu cárie. Puxamos demais o nosso laço e ele acabou virando um nó cego, um nó cego disfarçado de ponto final, e olha que ironia, agora é tudo tão amargo. Eu assumo, Alzira: rasguei todas as nossas fotos e as fiz de lenha para essa fogueira agridoce, depois guardei as copias em baixo do meu travesseiro enquanto o afagava procurando por algum indício do seu cheiro, mas só encontro a sua ausência do lado esquerdo da cama. Ontem passei por aquela lanchonete de esquina em que costumávamos tomar café nos sábados gelados e, pelo vidro transparente, te vi conversando com algum rapaz de sorte enquanto tomava o seu chocolate quente. É, eu reconheceria o tom de verde dos seus olhos em qualquer lugar. Verde-esmeralda-Alzira, minha cor preferida que naquela hora cintilava para um cara sortudo que não era eu. Vou te confessar, pequena, minha vontade era entrar lá, agarrá-lo pelo colarinho daquela camisa ridícula e jogá-lo no meio da rua por estar olhando com tal desejo pro meu verde-esmeralda, mas não o fiz, em vez disso peguei no bolso o maço de cigarros e me peguei repetindo mentalmente “Cadê a porra do meu isqueiro? Não importa, parei de fumar. Cadê a porra do meu isqueiro? Não importa, não fumo há tempos. CADÊ A PORRA DO MEU ISQUEIRO?”. Atravessei a rua e entrei naquele botequim fuleiro do balconista parrudo, se lembra? Comprei uma caixinha de fósforo e te traguei. Traguei, traguei, traguei, traguei. Traguei até quase me asfixiar com tamanha saudade que eu sentia da sua pele na minha, depois pedi uma dose de uísque e te bebi. Uma, duas, três, quatro, dez. Tô com ressaca até agora, Alzira. Sabe, eu tinha me conformado em sobreviver com aquela falta-de-alguma-coisa, mas aí você apareceu, e aí você se foi, e agora nada mais se encaixa. Virou falta-de-você, Alzira, e agora eu fico por aí, atravessando a rua com meus passos bêbados, procurando algum vestígio de você em todas as pessoas que eu esbarro, procurando alguem para preencher esse vazio que você deixou dentro de mim. O tempo não abre, lá fora uma tempestade e aqui dentro só algumas gotinhas de você transbordando pelos meus olhos por causa da saudade que já é maior que eu. Já faz tanto tempo, mi hermosa. Porque não desatamos aquele nó e o transformamos em vírgula? Reticências, exclamação, ponto e vírgula, aspas, interrogação, dois pontos. Tudo. Qualquer coisa. Só não ponto final, assim, no meio dessa história que tem tanta página em branco pela frente. Pensa bem. Encerro essa carta com um “se cuida, pequena” com aquele ar de “se deixares eu te cuido pra sempre”.

PS: Eu continuo a te escrever canções.

Com (muito) amor, Seu Dom Juan de araque.

Passa e fica.

sexta-feira, 26 agosto, 2011 @ 10:11am

Poderia doer menos, mas vai passar. Você pensa que não vai caber no peito, mas passa. Tudo passa. Mas e você, quando passará por aqui? Só preciso te ter por perto, sorrindo com os olhos, pra eu me tornar completa. Mas o nosso tempo ta passando. Ta passando. Ta acabando. Cadê você?  Ah, como eu queria que soubesses que eu amo esse seu jeito de sorrir com os olhos. Eu digo que não amo mas amo, amo, amo tanto. Vamos lá, bebe um pouco desse amor que eu estou lhe oferecendo. Contagie-se. Contagie-me. Meus braços estão morrendo de vontade de te abraçar mais uma vez. Estranho, nem mesmo aquelas boas doses de tequila fazem eu me sentir tão bem quanto me sinto quando envolta em seus braços. Vem. Volta. Eu te cuido, juro. E quando voltar, não solta da minha mão. Não vá embora e, por favor, também não me deixe querer ir. Precisamos terminar o que começamos. E quando terminar, recomeçar. Fazer tudo de novo e de novo e de novo e até não dar mais. Queria tanto que você estivesse aqui. Mas cadê você? Não saio há dias do lado do telefone e quando toca a campainha eu sempre acho que é você voltando pra minha sala. Meu coração aos saltos dentro do peito. Mas cadê você? Não te vejo. Nem te escuto. Te sinto. Passou tanto tempo e eu ainda te sinto aqui. Dói. Dói, dói, dói tanto. Mas passa. Tudo passa. E quem sabe um dia você ainda passe por aqui. E fique.

Nas entrelinhas.

terça-feira, 2 agosto, 2011 @ 8:57pm

Ah, menina. Eu estive te observando por tantos dias, tenho a impressão de que te vi chegar, mas parece que não foi real. Eu não sei de onde você veio, mas não importa, desde que você fique por aqui. Deixa eu te perguntar uma coisa: tem lugar pra mim em meio aos seus abraços? Confesso que sou uma bagunça, mas a minha solidão tem me enlouquecido tanto, tanto, tanto. Não dá mais pra ficar só.

Sabe, vez ou outra lembro-me da sua voz e ouço ela cantando aquela canção de amor que eu fiz pra ti. Quando isso acontece eu me perco em um monólogo mental e, com um lápis imaginário, vou esboçando por cima dele o nosso possível final feliz. Depois me falta o ar. Eu sei, sou tão clichê.

Ah, menina. Me diga aquelas tais palavras mágicas que eu te levo até às estrelas e te trago de volta. Uma, duas, três, mil vezes. Existem tantas coisas que eu gostaria de te dizer, mas não faço ideia de como começar. Logo eu que nunca gosto de nada, gostei tanto assim de você. Será que você vale o risco?

Digamos que encontrei a resposta na hora em que você sorriu.

E aqui vamos nós.

sábado, 9 julho, 2011 @ 7:13pm

Como chegamos aqui? Prometo que te ajudo a entender se você tentar me explicar. Estávamos tão bem. Pra onde foram as borboletas que costumavam voar pelo meu estômago? Aqui dentro parece estar mais frio do que o tempo lá fora. É, parece que você revestiu com gelo o que apelidamos de meu coração. Ironia é você ser o único que consegue fazê-lo chegar na temperatura de fusão. É como dormir contigo e acordar com um bilhete em cima do seu travesseiro que diz “tive que ir, nos vemos em breve” com aquele ar de “valeu! foi bom, adeus”

Vontade de sair rodando a cidade à 100km por hora procurando a tal esquina em que meus olhos se encontraram com os seus só pra te dizer diversas vezes que te odeio. Mas pra quem eu quero mentir? É uma raiva tão apaixonante, do tipo odiando para não morrer de amor. Eu te odeio em tudo, mas não posso evitar, é com o maior amor do mundo. Agora me diz de uma vez, que droga é essa que você tem que faz com que eu me proíba de te odiar, de te deixar, de te esquecer?

Fecho os olhos e perco o meu olhar no seu. Sem querer seus olhos me revelam o seu segredo mais oculto: você também sente saudade. Isso quer dizer que você esta arrependido? Eu estava lutando comigo mesma para manter uma distância confortável entre nós, mas agora estou só a dois passos da sua rua. Sua porta continua aberta? Eu queria tanto entrar de novo na sua casa, na sua sala, na sua vida. Dessa vez pra ficar. Quando quiser conversar liga pra mim. Eu anotei meu número em um papel, caso você não se lembre mais dele, e guardei no bolso daquela sua camisa xadrez que você tanto gosta.

Ah, meu amor. Tudo bem, não tão meu. Só amor. Fica tudo tão confuso sem você por perto.

terça-feira, 28 junho, 2011 @ 10:25pm

Menina interessante a tal de Carolina. Tinha sempre ao seu alcance uma caneta, um maço de cigarros e uma garrafa de vinho vagabundo que bebia enquanto rabiscava frases que não pareciam ter muito nexo em algumas folhas de papel que, nessa altura, já se encontravam borradas pela saudade que não cabia mais em seu peito e insistia em transbordar pelo canto de seus olhos enquanto ela ia negando pra si mesmo tudo o que sentia, sentindo tudo o que teimava em negar.

Olhava ao seu redor e só o que via eram livros abertos esparramados pelo tapete, cinzeiros lotados com pontas de cigarro e alguns vinis que gostava de guardar mesmo sem ter algum aparelho para ouvi-los. Deixou as folhas de lado, deitou no tapete que cheirava forte a vinho e trouxe para perto um cobertor para poder se aquecer, tudo isso só para o frio não amolecer as recordações. Dizem que em dias de frio a saudade aumenta. E aumentou. O peito esquerdo explodiu e lágrimas curtas que despejavam uma cascata de sentimentos escorreram, mais uma vez, por seus olhos. Chico Buarque dizendo leve ao pé de seu ouvido: “Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada mudar”. Então ela respirou fundo, secou as lágrimas e deu um enorme gole no vinho seco de três reais.

Embriagou-se de bossa nova.

domingo, 26 junho, 2011 @ 4:03am

Olhei para o lado e não havia mais ninguém ali. Estendi minha mão que tocou um espaço vazio na cama e fechei os olhos para tentar absorver as informações que doíam mais do que uma porrada na cara. Virei-me para ligar o som e dei play em uma música leve que deixou as minhas dores mais perceptíveis quando a intenção era afoga-las. Tudo bem, isso costuma acontecer. Enquanto isso meus dedos continuavam tocando uma ausência ao meu lado. Eu Chorei. E chorei mais, porquê doía chorar. Embora eu deixasse sorrisos estamparem meu rosto para encobrirem a dor, doía. E eu nunca fui boa em lidar com essas dores. O lugar que a pouco era seu ficou vazio e você não se deu nem ao trabalho de se despedir, só deu as costas e foi embora levando tudo o que eu tinha. Meus sorrisos, meus sonhos, meu all star vermelho, minhas noites de sábado, minhas tardes de domingo, meu relógio, meu calendário. Só me sobrou esses comprimidos para insônia e esse nó no peito que dói, dói, dói e não tem remédio.

Deixei o cigarro e o café de lado pra vir te escrever.

sábado, 18 junho, 2011 @ 4:09am

A campainha tocou. Saí correndo para atender a porta e fui recebida por uma avalanche de beijos e abraços que vinham da única pessoa que elogiava o cheiro do meu café. Aqueles olhos esverdeados que iluminavam todos os cantos do meu apartamento, aquele corte de cabelo que eu odiava, aquela camisa azul lisa e sem graça; era tudo tão apaixonante. Passávamos a maioria das tardes sentados no sofá vendo desenhos ou escolhendo os nomes e as raças dos cachorros que íamos ter quando morássemos juntos. No meio disso eu levantava umas três ou quatro vezes para ir até a cozinha pegar café, acendia um cigarro e ia fumar na janela, e ele sempre falando “larga esse cigarro. Isso faz mal, guria”. Os meses foram passando e ele me fez enjoar do café, e sem o café o cigarro não parecia mais ser tão bom. Demorei a confessar, e quando ele finalmente soube ficou todo cheio de si dizendo que tinha valido a pena as insistências dele contra os meus vícios. Girei os olhos e tentei segurar o sorriso, mas uma coisa era certa: era totalmente impossível não sorrir na presença dele.

Vez ou outra tirávamos o dia para discutir, por exemplo, quem era melhor: Batman ou Super-Homem. Ele, com a sua paranóica adoração pelo Batman, defendendo-o com argumentos que eu não fazia idéia do que significavam, e eu falando do Super-Homem só para irritá-lo. No final era sempre a mesma coisa, nós dois simulando uma lutinha boba em cima da cama que acabava com um ataque de cócegas ou de beijos. Um dia ele apareceu com uma máscara do Batman para me dar de presente, simulei uma cara de desgosto dando ênfase na parte que eu só iria colocá-la porque ele estava pedindo. Ele abriu um sorriso que bagunçou tudo dentro de mim e me deu um beijo na testa antes de eu colocar a máscara, depois soltou algumas gracinhas sobre o fato de eu preferir o Super-Homem. Foi aí, exatamente nesse instante, que eu percebi que o amor é o ponto fraco de todo super-herói.

Na véspera do meu aniversário ele apareceu com pizza e alguns filmes. Comemos e depois ficamos enrolados no cobertor, eu sendo hipnotizada pelo perfume dele e ele sentindo de perto a minha respiração. O segundo filme terminou e ele acabou adormecendo ao meu lado, olhei para o relógio que já marcava uma e quinze da manhã, fechei os olhos e imaginei um bolo com uma vela acesa. Assoprei o ar com os olhos ainda fechados e a única coisa que eu desejei foi tê-lo ali por mais uma ou duas noites, ou pra sempre.

Segredos de gaveta.

quinta-feira, 5 maio, 2011 @ 2:06am

Escrevi e amassei. Mais uma bola de papel para a minha pilha de sentimentos não-transmutados em palavras. Virei-me para a janela e me concentrei na chuva fina que caia do lado de fora. Depois de alguns minutos abraçando o vazio, cheguei a triste conclusão de que seu rosto, sua voz e seu sorriso vinham se intrometendo em qualquer coisa que eu ousava fazer ou pensar, acabando totalmente com a minha capacidade de concentração. Dei um gole no café, que a essa altura já estava frio, procurando afastar as lembranças. Nada que um copo de café não resolva. Fechei os olhos e contei mentalmente até trinta enquanto tentava pensar em algo que não fizesse minhas feridas sangrarem, quando terminei a contagem abri os olhos e escrevi bem grande no primeiro papel não amassado que encontrei “Café frio não afasta dor de amor“. Guardei na gaveta e voltei ao vazio.

terça-feira, 19 abril, 2011 @ 3:43pm

Estávamos tão próximo que eu podia sentir a sua respiração quase inexistente, e isso em fração de segundos fez a minha respiração afobar junto com um estranho surto repentino de felicidade. Me encolhi de frio, embora fizesse calor suficiente naquela noite por dentro eu estava gélida e só o que podia me aquecer era o seu abraço. Sem nem me preocupar em disfarçar foquei toda a minha atenção na sua boca que, ao perceber, se curvou em um quase sorriso. Aquele seu quase sorriso quase me levou pra outro mundo quase sem eu ter que tirar os pés do chão. Desejei esconde-lo dentro de um livro e guardá-lo na minha estante para poder ter aquelas sublimes quase sensações toda vez que o coração apertasse, mesmo sabendo que era só fechar os olhos para eu poder te encontrar. Dessa vez foram os meus lábios que se curvaram em um sorriso inocente.

Promessas perduráveis, beijos suaves, abraços genuínos, risadas espontâneas, tudo isso acompanhado com juras eternas de amor. Caiu. Caiu e machucou. Caiu pra não levantar mais. Clichê, eu sei. Me encolhi de novo, mas dessa vez porque doía mais do que eu estava acostumada a aguentar. Isso é a sua eternidade? Pra onde foi o amor? E os nossos planos? Nossos segredos? Onde foram parar as suas promessas? Você não se lembra de nada? A mesma série infinita de perguntas sem respostas. Eu não esperava ter que chorar por isso.

Depois do ocorrido me envolvi em uma bolha com a finalidade de formar um escudo particular para me auto-proteger dos danos causados pela minha demasiada ingenuidade. N’um mundo repleto de pessoas sem coração a gente tem que encontrar algum jeito para poder se proteger, o que eu não sabia era que bolhas eram extremamente fáceis de estourar.

Eu ainda te tenho na minha estante e aqui dentro de mim. E agora to te transcrevendo com a minha letra assimétrica nesse pedaço de papel amassado que minutos antes fora um barquinho e que transformei na peça principal para converter em palavras todas as minhas angustias. Eu te sinto passar do meu coração para o lápis, do lápis para o papel, mas você continua aqui dentro – e não parece querer que eu te deixe sair. Do papel de volta para o coração, fazendo dessa história esse ciclo inconstante de tristeza e alegria.

terça-feira, 12 abril, 2011 @ 7:04pm

Tomei dois copos e procurei paliar com um quase sorriso toda aquela asneira da conversa frouxa dos demais presentes, enquanto em algum lugar daquele cômodo aglomerado de gente desconhecida tocava uma música ensurdecedora na qual, por mais que eu tentasse, eu não conseguia reconhecer.

Levantei do sofá e fui, em passos desordenados, procurar por um lugar menos importuno que a sala de estar. Não encontrei nenhum cômodo mais silencioso, porém, em meio aquele mar de pessoas agitadas avistei um olhar confuso que parecia procurar algo também. Dei fim às minhas buscas.

Fitei-o nos olhos, mas ele desviou o olhar enquanto dava goles em uma garrafa de vinho barato. Embora seu olhar estivesse um tanto túrbido, ele parecia mais habituado do que eu a toda aquela gente estranha e toda aquela música barulhenta. Notei ao reparar que seus pés batiam automaticamente no chão de acordo com o ritmo que envolvia todos ao nosso redor.

Aproximei-me com o propósito de puxar um assunto qualquer mas perdi o meu foco e mergulhei no azul de seus olhos. Saí do transe quando sua voz doce, que eu quase não conseguia ouvir, flutuou por aquele aposento desviando do estrondo da música agressiva misturado com as vozes das pessoas já ébrias até chegarem aos meus ouvidos. Pelo bem da minha própria paz de espírito expulsei todas as preocupações da minha mente e me deixei levar pela sensação agradável que a sua voz me trazia.

Passamos minutos interminávelmente aprazíveis conversando sobre coisas sem nenhuma relevância e eu sorri ao perceber que nem vi o tempo passar. Sorri mais uma vez ao notar que ele me lançou um sorriso torto, daqueles que te deixam sem ar, me fazendo crer que estávamos em sintonia.

Quem contaria em encontrar alguém cativante aqui, entre essas tantas garrafas de vinho vazias?